NEXUS SINGULAR
Terminal de Dados
Saga Eco das Realidades - Capítulo 12

E Esse Amor o Matou

Enquanto o multiverso entra em colapso, Edwin retorna ao início de tudo para impedir a abertura da Porta e descobre que até o fim do universo pode carregar misericórdia.

E Esse Amor o Matou - Nexus Singular

O fim do universo não chegou em fogo.

Chegou em silêncio.

As estrelas começaram a desaparecer primeiro.

Não explodiam.

Não morriam.

Apenas deixavam de existir, como palavras apagadas lentamente de um livro antigo.

Sistemas inteiros sumiam dos mapas gravitacionais da Frota Colonial.

Constelações perdiam forma.

A própria luz parecia cansada demais para continuar atravessando a escuridão.

O multiverso estava colapsando.

E, no centro da ruptura, acima das ruínas gravitacionais próximas a Saturno, a Porta finalmente começava a abrir-se.

Nem os reptilianos tentaram impedir.

As frotas de Khar-Zul apenas observavam à distância, imóveis diante daquilo que emergia além da realidade rasgada.

Pela primeira vez desde o início da guerra, não existia hostilidade entre humanos e reptilianos.

Apenas medo compartilhado.

Os Arquitetos do Vazio atravessavam lentamente as fissuras.

Não como criaturas entrando em uma sala.

Mas como conceitos invadindo matéria.

A física deixava de funcionar corretamente perto deles.

Tempo e espaço dobravam-se em direções impossíveis.

Naves desapareciam ao simples contato com suas presenças gravitacionais.

Edwin observava tudo da cabine da Argos.

E compreendia.

A guerra terminara.

Agora existia apenas escolha.

A solução calculada pelas inteligências da Frota era brutalmente simples:

A Fonte Primária precisava ser destruída dentro do ponto original da ruptura em 2026.

Não bastava impedir o experimento.

Era necessário selar a própria ressonância dimensional usando um colapso gravitacional reverso.

Uma singularidade controlada.

Um pulso capaz de apagar a Porta antes de seu nascimento.

O problema era energético.

Nenhuma nave sobreviveria ao processo.

Nenhuma consciência humana suportaria o colapso causal gerado pela operação.

Era missão sem retorno.

Orion “Dreadlock” de Campos levantou-se imediatamente quando o plano foi apresentado.

— Eu vou.

Edwin balançou a cabeça antes mesmo que alguém respondesse.

— Não.

Os dois se encararam em silêncio.

Durante meses atravessaram guerra, rupturas e universos quebrados juntos.

Já não precisavam explicar certas coisas.

Orion compreendeu imediatamente.

— Você acha que é seu destino porque carrega o nome dele.
— Não.

Edwin respirou lentamente.

— Porque fui eu quem abriu a Porta.

Silêncio.

E talvez fosse verdade.

Talvez não no sentido literal.

Mas emocional.

Espiritual.

Humano.

A ruptura nunca respondera apenas à física.

Respondera à consciência.

À memória.

À dor.

O Eco de Beca atravessara universos porque algo dentro de Edwin recusava-se a deixar o passado morrer.

E talvez o universo tivesse rachado exatamente ali.

No ponto onde amor, culpa e infinito se tocaram.

A Argos preparou-se para o último salto.

Não rumo a outro sistema.

Mas rumo ao passado.

Pela primeira vez na história humana, o Propulsor Lotbrohorst seria utilizado para uma travessia causal completa.

Não apenas espaço.

Tempo.

Os reptilianos não impediram.

Na verdade…

Abriram caminho.

Naves de Khar-Zul formaram silenciosamente um corredor gravitacional entre os destroços de Saturno enquanto o Grupo Chacal assumia posição de combate ao redor da Argos.

Era o armistício mais estranho da história do cosmos.

Duas civilizações que passaram décadas tentando destruir uma à outra agora lutavam juntas contra algo infinitamente mais antigo.

Antes do salto, Orion encontrou Edwin sozinho no compartimento de observação.

As estrelas já pareciam irreais do lado de fora.

Como lembranças apagando-se.

— Sabe qual é a pior parte? — perguntou Orion.

Edwin olhou para ele.

— Qual?

O comandante do Chacal sorriu cansado.

— Depois de tudo isso… eu ainda acho que você teve sorte.

Edwin quase riu.

Quase.

— Sorte?
— Você amou alguém de verdade.

O silêncio entre os dois permaneceu humano demais para aquele fim de universo.

Então Orion aproximou-se e colocou um pequeno objeto metálico na mão de Edwin.

Uma cruz antiga.

Pequena.

Gasta pelo tempo.

— Minha mãe dizia que até o universo mais escuro ainda pertence a Deus.

Orion deu de ombros.

— Nunca acreditei muito nisso.
— Mas talvez ela soubesse alguma coisa.

Edwin observou a cruz por alguns segundos.

Não respondeu.

Mas guardou-a.

O salto começou.

Desta vez não houve fragmentação.

Nem dor.

Nem múltiplas realidades rasgando-se ao redor.

Houve paz.

Como se o universo inteiro prendesse a respiração.

Então Edwin viu o Atacama.

2026.

O deserto chileno permanecia silencioso sob um céu absurdo de estrelas.

As antenas do observatório ALMA erguiam-se contra a noite fria como gigantes observando o infinito.

E lá estava ele.

O primeiro Edwin Lotbrohorst.

Sozinho diante dos monitores.

Cansado.

Magro.

Perdido dentro das próprias descobertas.

Edwin aproximou-se lentamente.

Pela primeira vez vendo o homem não como lenda.

Mas como humano.

O cientista levantou os olhos.

E não pareceu surpreso.

Talvez porque já estivesse vendo ecos de outras realidades há muito tempo.

— Então era verdade… — murmurou o velho físico.

Edwin sentiu lágrimas silenciosas surgirem.

Porque compreendeu algo devastador naquele instante:

O ancestral nunca enlouquecera.

Apenas estivera sozinho demais diante de coisas grandes demais para um homem suportar.

— Eu tentei salvar todos eles. — disse o cientista.
— Eu sei.

Houve silêncio.

Dois homens separados por quase um século olhando para o mesmo universo quebrado.

— Existe alguma esperança? — perguntou o velho Edwin.

Edwin olhou para o céu.

As estrelas.

O infinito.

A criação inteira tremendo diante da própria ruína.

— Sim.

Não porque acreditasse na humanidade.

Nem porque acreditasse na ciência.

Nem porque acreditasse que homens fossem bons.

Mas porque, em algum lugar entre guerra, amor, perda e eternidade…

ele finalmente compreendia que o universo talvez não estivesse vazio.

E pela primeira vez desde o início de tudo…

Edwin não sentiu medo.

A singularidade começou a formar-se ao redor do observatório.

As estruturas do ALMA vibraram.

O espaço curvou-se lentamente.

A Porta começava a fechar-se antes de nascer.

Edwin sentiu o corpo desaparecer em partículas luminosas.

A causalidade corrigindo-se.

O multiverso reorganizando-se.

Então ouviu uma voz.

Beca.

Não como eco.

Nem lembrança.

Como verdade.

— Eu amei você também.

A frase atravessou sua alma mais profundamente que qualquer fenômeno cósmico.

Simples.

Humana.

Real.

Edwin sorriu pela última vez.

Enquanto o universo se reconstruía ao redor dele, seus olhos ergueram-se para o céu do Atacama.

E por um breve instante impossível…

entre bilhões de estrelas…

ele acreditou ver uma luz atravessando a escuridão em silêncio.

Não uma nave.

Não uma ruptura.

Não uma entidade.

Algo infinitamente mais antigo.

E infinitamente mais misericordioso.

Então veio a paz.

Décadas depois, a guerra jamais existiu nos registros humanos.

Khar-Zul tornou-se apenas uma anomalia astronômica sem explicação definitiva.

O Propulsor Lotbrohorst nunca foi concluído.

As rupturas nunca aconteceram.

A humanidade permaneceu limitada ao próprio sistema solar.

E talvez isso tenha salvado a espécie.

Mas algumas coisas sobreviveram.

Pilotos do espaço profundo ainda relatavam sonhos estranhos sobre estrelas partidas.

Cientistas às vezes encontravam equações impossíveis surgindo anonimamente em bancos de dados.

E, em uma pequena cidade da Terra, uma mulher chamada Beca ocasionalmente sentia tristeza olhando para o céu noturno…

como se tivesse esquecido alguém importante.

Próximo ao antigo observatório no Atacama, um memorial permaneceu existindo mesmo após todas as correções causais.

Ninguém sabia exatamente quem o construiu.

Nele estavam gravadas apenas duas frases:

“Aqui jaz um homem que sonhou tocar as estrelas,
mas morreu sem chegar à lua.”

E abaixo:

“Em algum universo… nós demos certo.”

E desde o início ele a amou verdadeiramente.

E esse amor o matou.