O nome Lotbrohorst sobrevivera ao tempo da mesma forma que sobrevivem as estrelas mortas: sua luz continuava viajando mesmo após o colapso.
No século XXII, praticamente toda criança aprendia na escola sobre o Propulsor Lotbrohorst. O mecanismo havia transformado a humanidade de espécie planetária em civilização interestelar.
Sem ele, Marte ainda seria apenas um posto avançado estéril. Sem ele, as luas de Saturno permaneceriam inalcançáveis. Sem ele, a Terra jamais teria resistido à expansão reptiliana além do Cinturão de Kuiper.
Mas poucas pessoas conheciam o homem por trás da equação.
Os registros oficiais falavam de Edwin Lotbrohorst como um físico visionário nascido no final do século XX, morto em 2026.
Um cientista excêntrico que trabalhou no observatório ALMA, no deserto do Atacama, e formulou as primeiras hipóteses sobre compressão interdimensional.
Os arquivos confidenciais diziam outra coisa.
Diziam que ele enlouqueceu.
Diziam que passou os últimos anos ouvindo vozes vindas das estrelas.
Diziam que viu universos demais.
Edwin carregava aquele sobrenome como quem herda uma ruína sagrada.
“Algumas famílias herdam terras; os Lotbrohorst herdaram perguntas.”
E perguntas eram perigosas. Principalmente aquelas feitas ao universo.
Na adolescência, Edwin passou a estudar obsessivamente os arquivos digitalizados do antepassado.
Ele lia tudo: as equações, os mapas estelares, as anotações desconexas e os relatos perturbadores.
— O espaço não está vazio. O vazio é apenas o que nossos sentidos conseguem suportar.
Edwin assistiu àquela gravação centenas de vezes.
Havia algo inquietante na forma como seu ancestral pronunciava certas palavras. Não parecia alguém fazendo descobertas. Parecia alguém descrevendo uma doença.
No ano de 2112, a humanidade já dominava princípios avançados da física relativística aplicada.
Buracos de dobra eram gerados artificialmente. Singularidades controladas alimentavam cidades orbitais. Computadores quânticos operavam em estados probabilísticos múltiplos.
Ainda assim, as teorias originais de Lotbrohorst permaneciam parcialmente incompreendidas.
Porque o Propulsor Lotbrohorst não funcionava apenas através da física tradicional.
Funcionava através da estrutura profunda da realidade.
A teoria afirmava que o universo não era contínuo, mas composto por membranas vibracionais coexistindo em frequências dimensionais diferentes.
Em circunstâncias específicas, pequenas oscilações entre essas membranas criavam microfraturas temporárias entre universos paralelos.
Essas fraturas podiam ser utilizadas. Não para viajar mais rápido que a luz, mas para reduzir a distância entre dois pontos do espaço através da deformação topológica da própria causalidade.
Era uma solução elegante.
E aterrorizante.
Porque significava que cada salto interestelar tocava outras realidades, mesmo que apenas por microssegundos.
Os militares chamavam aquilo de trânsito de dobra. Os físicos chamavam de compressão interdimensional. Os pilotos chamavam simplesmente de travessia.
Mas entre as tripulações mais antigas existia outro nome.
O Mar dos Ecos.
Dizia-se que alguns viajantes ouviam vozes durante o salto. Outros viam pessoas mortas. Outros enlouqueciam.
Edwin compreendia melhor que ninguém por quê.
Porque ele também via coisas.
Fragmentos. Pequenos desajustes na realidade. Corredores diferentes. Pessoas usando roupas de outras linhas temporais. Céus com luas erradas.
E quase sempre…
Beca.
Aos vinte e sete anos, Edwin já havia realizado onze travessias profundas utilizando propulsores de terceira geração.
Oficialmente, os efeitos neurológicos eram mínimos. Mas relatórios internos mostravam aumento progressivo de distúrbios dissociativos em soldados submetidos a múltiplas compressões espaço-dimensionais.
O cérebro humano não havia evoluído para tocar universos paralelos.
Ainda assim, a guerra exigia aquilo.
Seu ancestral salvara a espécie.
E talvez tivesse condenado sua própria linhagem.
Na noite anterior à missão em Thalassar-b, Edwin acessou clandestinamente os Arquivos Negros da Frota Colonial.
RELATÓRIO CONFIDENCIAL — OBSERVATÓRIO ALMA — 17/10/2026
O deserto do Atacama parecia outro planeta: um oceano imóvel de pedra e silêncio sob um céu impossível de estrelas.
Então veio a última fotografia.
Edwin Lotbrohorst sentado diante dos monitores.
Morto.
Os olhos abertos. Fixos na escuridão além do vidro.
O detalhe perturbador não era o corpo.
Era a expressão.
Não havia medo em seu rosto. Havia reconhecimento.
Como se tivesse finalmente compreendido alguma coisa terrível.
No reflexo da tela do observatório, quase invisível, parecia existir uma silhueta atrás do cientista.
Humana. Observando.
Os relatórios oficiais alegavam artefato visual causado por baixa resolução.
Mas Edwin sabia o que era.
Ou acreditava saber.
Uma sobreposição dimensional.
Outro universo vazando através da membrana do real.
Seu ancestral provavelmente não enlouquecera.
Provavelmente enxergara demais.
“Existem universos onde a humanidade nunca deixou a Terra.”
“Existem universos onde eles chegaram antes.”
“Existem universos onde eu a salvei.”
“Em algum universo… eu consegui voltar.”
Edwin fechou os arquivos lentamente.
Pela primeira vez em anos, compreendeu o verdadeiro peso de sua herança.
O Propulsor Lotbrohorst não era apenas uma máquina.
Era uma ferida aberta entre realidades.
Toda nave humana cruzando as estrelas fazia o tecido do universo sangrar por alguns instantes.
Talvez fosse por isso que os reptilianos odiavam tanto aquela tecnologia.
Talvez eles soubessem algo que os humanos ainda ignoravam.
Do lado externo da nave militar, alarmes começaram a soar. A frota aproximava-se da zona orbital de Thalassar-b.
Edwin levantou-se.
Pela pequena escotilha metálica, observou o espaço profundo.
As estrelas pareciam normais.
Mas agora ele sabia que nenhuma delas era realmente fixa.
Em algum lugar além daquelas luzes existiam bilhões de versões do cosmos.
Bilhões de Terras.
Bilhões de vidas diferentes.
E em algumas delas…
Beca ainda o amava.
A voz de Orion “Dreadlock” de Campos surgiu no comunicador interno:
— Equipe Ícaro, preparar desacoplamento. Hoje a gente entra no inferno.
Edwin colocou o capacete.
As travas magnéticas selaram sua armadura de infiltração.
Por um instante, antes da escuridão do visor se fechar, ele pensou no ancestral morto no Atacama.
Um homem sozinho diante das estrelas.
Um homem destruído pela necessidade de compreender.
Talvez aquele fosse o verdadeiro destino dos Lotbrohorst.
Não conquistar o universo.
Mas sobreviver ao fato de que ele era muito maior, mais estranho e mais cruel do que a mente humana deveria suportar.