NEXUS SINGULAR
Terminal de Dados

Capítulo 2 — O Guardião do Ruído Entre Mundos

Quando a realidade falha, o que resta pode não ser imaginação.

O universo não é silencioso.

Existe um ruído constante — um eco antigo do nascimento de tudo. E, mesmo sem entender isso, ele já carregava algo semelhante dentro de si.

Beca.

Não como lembrança ativa, mas como uma frequência contínua, impossível de eliminar.

A vida seguiu.

Casou-se. Viveu uma vida funcional. Estável. Previsível. Como um sistema que não colapsa, mas também não evolui.

Durante anos, acreditou que aquilo era maturidade.

Mas algo sempre falhava.

Pequenas imperfeições na realidade. Um desalinhamento sutil entre o que vivia e o que sentia.

Como se estivesse fora de fase com o próprio mundo.

Ele não entendia.

Até que os sonhos começaram a mudar.

Nos sonhos, Beca não era memória. Era presença.

Falava com ele. Olhava diretamente. Deixava mensagens que ele não conseguia lembrar, mas que permaneciam como sensação.

E então vieram as distorções.

Lugares que não existiam. Realidades sobrepostas. A sensação de estar em dois lugares ao mesmo tempo.

Ele começou a suspeitar.

Muitos anos depois, durante o treinamento militar, ouviu uma hipótese:

A consciência poderia atravessar microvariações do espaço-tempo.

Não viagens completas. Mas interferências.

Ruído.

Pela primeira vez, algo fez sentido.

E se não fossem sonhos?

E se aquelas versões de Beca fossem reais?

Essa ideia não trouxe conforto.

Trouxe obsessão.

Ainda assim, ele continuou vivendo.

Até que, um dia, tudo mudou.

Divorciou-se.

Não houve drama. Apenas o fim natural de algo que nunca foi profundo.

Pouco depois, soube de Beca.

Ela também havia se separado.

E o universo, por um instante, pareceu alinhar tudo.

Eles se encontraram.

Ele percebeu duas coisas imediatamente:

Ainda a amava.

E isso, sozinho, não significava mais nada.

Beca agora precisava de presença. Verdade. Ação.

E ele continuava sendo alguém que sentia muito… e fazia pouco.

Tentou reconstruir algo.

Falhou.

Quando mentiu, mesmo achando que era algo pequeno, tudo colapsou.

Não foi a mentira.

Foi o padrão.

A soma invisível de tudo que ele nunca conseguiu ser.

Ele entendeu.

Não era sobre aparência.

Não era sobre dinheiro.

Era sobre confiança.

E confiança não se improvisa.

Ele a perdeu novamente.

Mas dessa vez, sem ilusões.

Sem desculpas.

Sem romantizar o erro.

Pela primeira vez, não havia para onde fugir.

Foi então que tomou a decisão.

Alistou-se.

Não por heroísmo.

Mas porque não havia mais estrutura interna para permanecer parado.

Se existiam múltiplas realidades…

Talvez existisse uma onde ele pudesse corrigir tudo.

Ou pelo menos entender.

Sem perceber, deixava de ser apenas um homem.

Tornava-se algo diferente.

Um ponto de interferência.

Um observador instável.

Um atravessador de realidades.

Um futuro guardião…

do ruído entre mundos.