NEXUS SINGULAR
Rolagem Critica

Capítulo 1 — Desde o Início

Um amor que atravessa o tempo, a memória e as falhas do universo.

E desde o início ele a amou verdadeiramente.

Não como se ama uma paisagem bonita, nem como se ama uma canção que passa pelo rádio e fica presa na memória por algumas horas. Ele a amou como certos corpos celestes parecem amar a gravidade: sem entender, sem pedir, sem escolha. Apenas caindo.

Na época, ele tinha dezenove anos e ainda acreditava que o universo era feito de caminhos simples. Nascer, crescer, trabalhar, encontrar alguém, envelhecer. Tudo parecia obedecer a uma geometria limpa, quase escolar.

Então Beca apareceu.

Ela não entrou em sua vida como uma explosão. Ela simplesmente estava ali, em um fim de tarde comum. Mas, para ele, alguma coisa se rompeu.

Não foi apenas desejo. Era como se uma parte íntima de sua consciência tivesse reconhecido nela uma frequência perdida. Como se, antes mesmo de saber seu nome, ele já tivesse saudade.

Beca.

Durante algum tempo, eles se aproximaram. Havia encontros, conversas, olhares que demoravam mais do que deveriam. Um território onde duas pessoas quase se pertencem.

Mas ele não sabia como atravessar esse limite.

Amava com intensidade suficiente para assustar a si mesmo. Sentia o coração doer fisicamente, como se o peito fosse pequeno demais para aquilo.

Mas não dizia.

Confundia sentimento com destino. Achava que amar muito era suficiente. Que o universo recompensaria a intensidade.

E assim começou a construir a primeira de muitas distâncias.

O tempo passou.

Não poeticamente. Mas de forma brutal, cotidiana. Cada um seguiu seu caminho. Beca casou. Ele também.

Ainda assim, algo nela permaneceu. Como uma radiação invisível, constante. Um vestígio impossível de apagar.

Trinta anos se passaram.

Quando ambos se divorciaram, o mundo pareceu abrir uma fresta.

Eles se reencontraram. E ele percebeu que o amor não havia envelhecido.

Mas ele errou.

Mentiu. Pequenas mentiras, acreditou. Mas nenhuma mentira é pequena para quem já foi ferido.

Beca precisava de presença. Verdade. Atitude. Ele ofereceu sentimento sem sustentação.

E a perdeu novamente.

As palavras dela vieram duras. Cortantes. Dúvida, desconfiança, julgamento.

Ele entendeu tarde demais: confiança é mais frágil que qualquer tecnologia humana.

Pouco depois, alistou-se para a guerra em Épsilon Reticuli.

Não por patriotismo. Mas porque precisava lutar por algo que ainda fizesse sentido.

Na noite antes do embarque, olhou o céu. Pensou em todas as versões possíveis de Beca em universos diferentes.

E fez uma promessa silenciosa:

Se o universo tivesse rachaduras, ele atravessaria todas.

Se o tempo pudesse ser dobrado, ele o dobraria.

Na manhã seguinte, embarcou na nave Argos IX.

Lá fora, os caças do Grupo Chacal cortavam o céu.

À frente deles, o comandante Orion “Dreadlock” de Campos.

Ele ainda não sabia, mas aqueles pilotos seriam sua última família.

E Beca, sua última estrela.

Porque algumas histórias começam com um olhar.

Outras, com uma guerra.

A dele começou com amor.

E esse amor o matou.